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Carmun — Crônica

Dos Primeiros Tempos, da Linhagem de Maelgwyn e da Vinda dos Homens

24 de maio de 2026Autor: Filipe R. França

Nos primeiros anos do mundo, antes que houvesse canção entre os povos despertos, e antes que as árvores tivessem nome nas línguas dos filhos de Carmun, desceram os Quatro Pilares com seus anjos; e encontraram a terra informe, vasta e silenciosa, sem ordenação de monte, nem rio, nem mar. Então puseram nela fundamento, e por longo tempo trabalharam sobre sua face; e as águas foram chamadas aos seus leitos, e as montanhas ergueram a fronte contra o céu, e os ventos aprenderam os caminhos por onde haviam de passar.

E no extremo ocidente do mundo foi formado o Jardim, lugar alto e velado, onde a luz repousava sem corrupção. Ali habitavam os Pilares, e de lá contemplavam Carmun, que ainda era jovem. E durou aquela primeira era dois mil anos, segundo a contagem dos sábios posteriores; e chamaram-na a Era dos Quatro Pilares, ou a Era do Gênesis, pois nela foram lançadas as bases de tudo quanto depois haveria de ser amado e perdido.

No fim daquela era, Oghma, que era o criador entre eles e o mais profundo em segredo, reuniu novamente as Quatro Joias; e por sua obra surgiram os elfos, primeiros entre os povos despertos. Então terminou a Era do Gênesis, e teve início a Era do Jardim.

Naqueles dias os elfos eram ainda poucos, e caminhavam sob a luz do mundo como crianças de uma grande manhã. Não conheciam reinos, nem guerras, nem o peso das linhagens; e suas vozes eram claras junto às águas. Foi então que Yssbräd, o Pilar da Esperança, os encontrou por acaso, e seu aparecimento foi para eles como aurora sobre uma terra que não sabia ainda desejar. Muito o amaram, e por um tempo ele permaneceu entre eles; mas depois partiu, e demorou a retornar.

Então nasceu entre os elfos uma divisão que jamais seria inteiramente curada. Pois alguns, não suportando a ausência de Yssbräd, levantaram-se e seguiram para o extremo oeste, rumo à luz que iluminava o mundo. Outros, porém, permaneceram nas terras de Carmun, dizendo que ali haviam despertado, e ali deviam aguardar o que viesse. E os que ficaram foram depois chamados Arosen pelos antigos dos Mynedon; mas esse nome, com o passar das eras, tornou-se lembrança de sábios, pois os Arosen se dividiram em muitos povos, reinos e casas.

Os que partiram chegaram enfim à grande encosta do mundo, onde se erguia um paredão sem fim, tão alto que seu cume desaparecia na claridade. Acima dele ficava o Jardim, embora poucos olhos mortais ou élficos o vissem plenamente. Ali, aos pés da muralha, os peregrinos ergueram Glynseren, a Cidade Branca, e passaram a chamar-se Mynedon; pois eram o povo do caminho alto, e sua esperança estava voltada para o Jardim.

Sobre eles reinou Maelgwyn, primeiro grande rei da Cidade Branca, e ao seu lado estava Aelunwen, senhora de antiga luz. Sob Maelgwyn os Mynedon cresceram em ordem e beleza, e seus salões foram voltados para o alto, e suas canções subiam como fumaça clara ao entardecer. Mas veio o dia em que os Pilares chamaram Maelgwyn ao Jardim, e ele subiu, deixando seu povo sob a promessa de que outros poderiam também, em seu tempo, alcançar o Alto. Desde então ficou estabelecida a missão dos Mynedon: caminhar por Carmun, encontrar os povos élficos, e guiá-los à Cidade Branca, para que um dia subissem pelas águas ascendentes até o Jardim.

De Maelgwyn nasceram filhos, e entre eles estavam Aelrwyn e Cadwyn. Aelrwyn, o primogênito, foi grande entre todos os que desceram de Glynseren; pois caminhou entre os Arosen, e não os teve por inferiores nem esquecidos. Tomou por esposa Eirlys, filha das terras verdes, e por meio dele começou a primeira grande união entre os filhos do Jardim e os filhos de Carmun. De Aelrwyn nasceram três filhos: Elyrion, Caelion e Aelthir.

Elyrion foi o primogênito, grave em conselho e forte na guerra; Caelion foi amado entre os seus, e de coração mais doce; Aelthir, o mais novo, guardou os caminhos do oeste, próximo aos Mynedon, e conservou em si uma reverência antiga pela Cidade Branca. Esses três seriam lembrados em muitas canções, pois neles se dividiram os caminhos da casa de Aelrwyn.

Mas Cadwyn, irmão de Aelrwyn, não teve paz em seu coração. Grande era seu sangue, pois vinha de Maelgwyn; porém nele cresceu a inveja, lenta como raiz sob pedra. Tomou por esposa Vaelys, bela e triste nas memórias antigas, e teve um filho. Mas Cadwyn desejou aquilo que não lhe fora dado, e tentou alcançar por força o que os Pilares não lhe concederam. Rejeitado pelos Mynedon e impedido de subir ao Jardim, voltou-se aos Arosen e semeou divisão.

Então houve a primeira grande guerra entre os elfos de Carmun. Cadwyn seduziu parte do povo, levantou espada contra seus próprios parentes e matou Caelion, filho de Aelrwyn e marido de Nerys. Grande foi o lamento por Caelion, pois era amado; e Nerys, sua esposa, ficou como viúva de uma casa partida. No fim, Cadwyn foi morto, e a guerra se encerrou; mas não sem que uma ferida fosse aberta no coração dos elfos.

Contudo, nem toda ferida deu fruto de sombra. Pois o filho de Cadwyn, ainda criança, não foi morto nem privado de seu sangue. Elyrion, lembrando-se de Maelgwyn e da dignidade das linhagens, não quis apagar uma casa por causa do pecado do pai. E Nerys, cujo marido Cadwyn levara à morte, tomou o menino para si e o criou como filho. Assim nasceu a cura onde poderia ter nascido vingança.

Esse menino foi chamado Élaris, e dele veio o reino da floresta que tomou seu nome. Élaris tornou-se símbolo de perdão entre os povos, pois era herdeiro de uma culpa que não escolhera, e foi salvo pelo amor daquela que mais direito teria de odiá-lo. A floresta de Élaris cresceu jovem e bela, e por muitos anos foi tida como sinal de que nem toda linhagem quebrada precisava terminar em trevas.

Quanto a Nerys, ela não tomou coroa, nem quis ser rainha segundo os costumes dos reis. Dividiu as terras de Caelion em cidades sob regentes próprios, e tornou-se senhora distante, respeitada e quase intocável. Seus domínios foram conhecidos como os Regentes de Nerys; e embora não fossem os mais fortes entre os reinos, foram de grande importância, pois guardavam caminhos, memórias e equilíbrios que mais tarde seriam necessários.

Ora, enquanto essas coisas sucediam entre os descendentes de Maelgwyn, havia ainda entre os Arosen uma casa mais antiga, guardada por Elvarn, grande rei dos Arosen originais. Elvarn era para os que ficaram aquilo que Maelgwyn fora para os Mynedon: raiz, memória e autoridade. Sua esposa era Eiluned, senhora dos bosques antigos; e seu único filho chamava-se Elyndar.

Elyndar amava seu povo e honrava o pai, mas seu coração inclinava-se à Cidade Branca. Pois em certa época veio a ele um senhor dos Mynedon, que se tornou seu amigo fiel; e juntos caminharam por vales e rios, falando do Jardim, da luz, dos caminhos altos e dos povos de Carmun. Quando esse amigo retornou a Glynseren, Elyndar decidiu acompanhá-lo. Elvarn entristeceu-se profundamente, pois viu naquele gesto não apenas uma viagem, mas uma ruptura. E fechou suas portas aos Mynedon, não por ódio, mas por pesar.

Em Glynseren, Elyndar conheceu Lyriwen, elfa dos Mynedon, e por ela seu coração se prendeu ainda mais à Cidade Branca. Tomou-a por esposa, sabendo que jamais subiria ao Jardim; e ela, sabendo que por amor a ele também permaneceria em Carmun, escolheu-o mesmo assim. Quando Elvarn soube, teve grande dor, pois julgou que sua linhagem terminaria ali, desviada de seu trono e de seu povo. Assim fechou as portas também ao próprio filho, considerando-o como quem passara aos Mynedon.

De Elyndar e Lyriwen nasceu Elarion. E nele misturaram-se o sangue dos Arosen originais e o sangue dos Mynedon, e também a memória de Maelgwyn por caminhos de antiga união. Muito depois, quando o Jardim fosse retirado e os Mynedon ficassem sem rei, sem luz e sem destino, esse sangue misto seria tido não como mancha, mas como esperança.

Pois veio o tempo da grande calamidade. Lorenyä saiu de sua prisão no extremo leste, e matou seus irmãos Pilares. Para que toda Carmun não fosse destruída, Oghma recolheu o Jardim para seus domínios de segredo além do mundo. Então a grande muralha deixou de existir, e a luz que por eras repousara sobre o ocidente foi retirada. E Glynseren, que vivera sob o brilho do Alto, ficou subitamente sob o céu comum.

Esse foi o fim da Era do Jardim.

Grande foi o desespero dos Mynedon. Pois eles não eram como os outros povos: sua vida inteira fora espera, missão e caminho. Quando o Jardim partiu, partiu também o significado pelo qual muitos deles haviam vivido. Os navios ficaram sem destino, os cânticos sem resposta, e muitos morreram não pela lâmina, mas por ausência. Então Elyrion, vendo que o Leste se agitava sob sombras antigas, confiou a Aelthir a tarefa de não deixar perecer a herança dos Mynedon.

Aelthir partiu em busca de Elyndar, pois recordava-se de que ele, antes de todos, amara os Mynedon sem desejar o Jardim. Quando o encontrou, disse-lhe que a hora da Cidade Branca havia mudado, e que já não se tratava de subir, mas de permanecer. Elyndar então retornou ao pai após longos anos, e Elvarn, envelhecido pelo luto e pela mudança do mundo, recebeu-o. Assim houve perdão entre pai e filho, e Elarion cresceu entre os Arosen, aprendendo não apenas a memória da luz, mas também os caminhos da terra, da guerra e da permanência.

Mais tarde, com a bênção dos descendentes de Maelgwyn, Elarion foi enviado aos Mynedon, e tornou-se o primeiro grande rei daquele povo sem Jardim. Não era rei da ascensão, mas de Carmun. E tomou por esposa Eluneth, filha única de Elyrion e Eliraeth. Eluneth era tida como a última grande filha da antiga casa de Elyrion, amiga de Nerys e senhora de rara dignidade. Por ela uniram-se ainda mais os destinos dos antigos Arosen e dos Mynedon.

Mas a sombra do Leste crescia. Az’kharam, inimigo antigo, levantou guerra contra os povos de Carmun; e entre seus remanescentes estavam os Nakheli, povo marcado por sua sombra. De uma união proibida entre uma elfa e um Nakheli nasceram dois filhos: Eurian e Aelwen. Foram os primeiros humanos. Com poucos meses de vida perderam pai e mãe, e muitos entre os elfos debateram se deveriam ser acolhidos ou temidos. Pois eram filhos de sangue misturado a uma linhagem inimiga; e contudo havia neles algo novo, uma chama que nenhum elfo compreendia plenamente.

Az’kharam os odiou mais que aos próprios elfos, pois cria que deles viria sua queda. Assim a guerra, que antes mirava os reinos élficos, tornou-se também caçada aos dois primeiros humanos. Eles foram protegidos entre os Mynedon por Elarion e Eluneth, que lhes foram como pai e mãe; e sob sua guarda cresceram rapidamente, embora a idade de cinquenta anos ainda fosse juventude para eles, por causa do sangue poderoso que traziam.

Eurian tornou-se grande guerreiro e capitão entre os elfos, aprendendo depressa aquilo que outros levavam eras para dominar. Aelwen, sua irmã, foi também terrível e luminosa, e forjou a espada que mais tarde encerraria a guerra. Aelthir acreditava neles profundamente, e ensinou a outros que por meio deles Az’kharam cairia.

A guerra foi longa e cruel. Élaris, o reino da floresta nascido do perdão, foi derrotado; o próprio Élaris tombou, e sua terra tornou-se campo devastado. Os elfos recuaram diante dos Nakheli, e o passo entre as montanhas tornou-se o último portão antes das terras de Elyrion. Se aquele passo caísse, cairia também a esperança do oeste.

Ali Eurian manteve a guarda. E quando os Nakheli quase venceram, e o terror já subia pelas muralhas, Aelwen chegou com grande marcha, e o curso da batalha se virou. Muitos inimigos foram mortos antes que pudessem fugir, e alguns escaparam apenas para esconder-se nas montanhas. Essa vitória foi lembrada como a Vitória do Passo, pois ali os filhos dos homens mostraram pela primeira vez que não eram acidente, mas destino.

Depois disso, os elfos recuperaram a planície. E vendo que Az’kharam se enfurecera, e que buscaria matar Eurian e Aelwen com toda a sua força, os povos se reuniram para a batalha final. Estavam lá Elyrion, Aelthir, Nerys, Elyndar, Elarion, Eluneth, os filhos de Élaris e muitos senhores menores. Marcharam contra os passos de Az’kharam, e terrível foi a luta que se seguiu.

Nessa batalha tombou Elyrion, senhor entre os descendentes de Aelrwyn. E junto dele tombou Elyndar, filho de Elvarn, encerrando em si a linhagem original dos Arosen, embora seu sangue vivesse em Elarion. Então Eurian, sem armas, enfrentou Az’kharam e o segurou em combate desesperado; e Aelwen, tomando a espada que ela mesma forjara, apunhalou o inimigo. Assim o espírito de Az’kharam deixou o mundo e foi lançado a um lugar cruel; e com ele se foram muitas das sombras antigas que haviam sido semeadas desde a queda dos Pilares.

Sem seu senhor, os Nakheli fugiram e se dispersaram pelos lugares ocultos de Carmun. Mas a região onde Az’kharam fora vencido não permaneceu como antes. Pois a maldade ali plantada desde Lorenyä rompeu-se nas águas, e a terra foi inundada; a floresta devastada tornou-se grande mar ou lago interior, e apenas uma ilha permaneceu no meio. E dela se dizia que ninguém que a visitasse retornava.

Depois da guerra, Eurian e Aelwen voltaram, e outra história começou. Elyrion estava morto; Elyndar também. Aelthir não tomaria para si o domínio do irmão, pois tinha seu próprio povo e não confundiria aquilo que amava com aquilo que lhe pertencia. Os filhos de Élaris, por honra, não ousaram reivindicar o trono de Elyrion. E Eluneth, filha única de Elyrion, já havia se unido a Elarion e se desprendido da sucessão de seu pai.

Então Eluneth e Aelthir, em conselho grave, reconheceram Eurian como sucessor do domínio de Elyrion; não por sangue apenas, mas por feitos, por sacrifício e pela vontade da era que nascia. Assim a antiga casa dos elfos entregou parte de seu futuro aos primeiros humanos. E Eurian e Aelwen, que haviam encerrado a guerra de Az’kharam, uniram-se depois e deram origem à raça humana.

Desse modo, a história de Carmun passou dos Pilares aos elfos, dos elfos aos reinos, dos reinos à guerra, e da guerra aos homens. E muitos sábios disseram, nos tempos posteriores, que a luz do Jardim não desaparecera por completo quando Oghma o retirou do mundo; antes, fragmentou-se em linhagens, juramentos, amores e escolhas. Pois Nerys guardou o perdão, Elyndar guardou a permanência, Elarion guardou os Mynedon sem Jardim, e Eurian e Aelwen carregaram para a nova raça a chama que Az’kharam mais temera.

E assim terminou a antiga ordem de Carmun; não em silêncio, mas em sangue, águas profundas e esperança.